De Tchaikovsky ao new metal, música e guerra andam lado a lado

Publicado: abril 2, 2009 em Metal e Guerra

Logo da gravadora To The Fallen Records. (Foto: Divulgação)

Canções pacifistas já fazem parte do cânone da música pop – o que seria da carreira de Bob Dylan sem “Blowin’ in the wind” ou da fase solo de John Lennon sem “Give peace a chance”? Mas o pesquisador norte-americano Johnatan Pieslak preferiu enxergar o que acontece com a música quando o pacifismo falha: ele entrevistou uma série de soldados que serviram na Guerra do Iraque a respeito de suas preferências musicais para o livro “Sound targets”.

Soldados dos EUA usam música como inspiração e tática de guerra no Iraque

Música e guerra também andam lado a lado – desde que tambores e cornetas começaram a ser utilizados, ainda na Antiguidade, nos campos de batalha, para orientar e motivar tropas. Na música clássica, um exemplo é a “Abertura 1812”, do compositor russo Pyotr Ilych Tchaikovsky. A obra foi escrita como comemoração da resistência das tropas russas à invasão napoleônica, e a partitura incluía 16 tiros de canhão entre os instrumentos.

Mais moderno e ficcional é o uso em guerras de outra peça clássica – a abertura de “A cavalgada das Valquírias”, do compositor romântico Richard Wagner. Em uma cena do filme “Apocalypse now”, do diretor Francis Ford Copolla, um regimento de helicópteros usa a música do alemão como trilha sonora para uma incursão no Vietnã.

Como um exemplo do clichê “a vida imita a arte”, a situação aconteceu realmente na Guerra do Iraque, diz Pieslak, mas com tanques no lugar de helicópteros. Segundo o pesquisador, não existem registros do uso da música na Guerra do Vietnã, mas no Iraque a situação foi diferente: “Talvez não seja algo que tenha acontecido várias vezes, mas sem dúvida houve coisas assim, especialmente durante a invasão inicial do Iraque, em 2003”.

Metal

Mas não é só a música clássica que tem a sua vez na guerra. Os relatos colhidos por Pieslak mostram que os soldados ouvem rap (especialmente gêneros como o gangsta) e muito metal. Um militar chegou a dizer que gostava de Slayer “porque o som me lembra uma metralhadora”.

O Slayer chegou mesmo a usar o tema guerra em mais de uma música – como nas faixas “Ghosts of war” (“Fantasmas da guerra”) e “War ensemble” (“Agrupamento de guerra”), ou em “Angel of death’, cuja letra fala sobre o médico nazista Josef Mengele. Mas o tema não fica restrito ao Slayer.

O Motörhead tem o clássico “Bomber”, falando sobre bombardeios aéreos na Segunda Guerra Mundial. O Iron Maiden também fala sobre guerra no ar em “Aces high”, e sobre a Guerra da Criméia em “The trooper” – muitas vezes abordando o aspecto trágico dos conflitos. Os pioneiros do black metal Venom chegaram a usar cintos carregados com balas de fuzil – vestimenta repetida por diversos artistas de metal até hoje.

A conexão com a guerra segue até o nü metal – Pieslak diz que “Bodies”, do Drowning Pool, é uma das músicas mais citadas pelos soldados norte-americanos, graças ao seu refrão que diz “let the bodies hit the floor” (“Deixe os corpos caírem no chão”).

A canção foi citada por um soldado no documentário “Farhenheit 11 de Setembro” como “a trilha mais adequada ao trabalho que viemos fazer aqui (no Iraque)”. Curiosamente, a música foi uma das “banidas” pela rede de rádio norte-americana Clear Channel após os ataques de 11 de Setembro.

Por outro lado, o gênero está recheado de canções anti-bélicas, começando por “War pigs”, clássico do Black Sabbath, e passando por “One”, música do Metallica baseada no livro “Johnny ai à guerra”, de Dalton Trumbo e mesmo “Territory”, crítica indireta aos conflitos entre Israel e Palestina do Sepultura. A Guerra do Iraque encontrou seus maiores críticos no System of a Down, grupo de nü metal formado por descendentes de armênios extremamente politizados.

Faça você mesmo

Mas entre os soldados servindo no Iraque, a música não é apenas ouvida – ela também é feita por eles. A guerra acabou servindo de inspiração para muitos deles comporem seus próprios temas a respeito do conflito, muitos deles reunidos sob o selo To The Fallen Records, especializado em música criada por militares
A gravadora tem até o momento quatro lançamentos: uma coletânea de rock, outra de hip hop, uma de country e a quarta compilando músicas em que os soldados se despedem dos amigos mortos no conflito. Com artistas com nomes como American Hitmen e Counterstep, o selo foi criado pelo capitão Sean Gilfillan para lançar os “talentosos músicos militares”. “Não é sobre política, é sobre música”, afirma Gilfillan na página da gravadora.

Um dos artistas que participam do selo é Josh Revak, cantor influenciado por folk e country que lançou o disco independente “In the hours of darkness” (“Nas horas da escuridão”), em que várias das músicas foram compostas para o funeral de seus amigos mortos na guerra.

William A. Thompson IV também foi influenciado por suas experiências no Iraque. Pianista de formação clássica e fã de jazz, foi convocado para a guerra e levou junto um notebook, onde compôs peças de música eletrônica experimental, que foi disponibilizando na rede à medida em que eram finalizadas.

Após voltar aos EUA, lançou o disco “Baghdad music journal” (Diário musical de Bagdá”). “Experimentava com sons recolhidos diariamente com meu iPod”, explica Thompson so site “Perfect Sound Forever”, “a música é bem sombria e introvertida”.

O músico também lembra que a música não é alívio ou incentivo para quem está na guerra: “É muito estranho estar em um lugar calmo depois de se acostumar com a tensão. Até fazer música parecia estranho depois da guerra. Mas tudo mudou depois que voltei a tocar com meus amigos, foi libertador”. Como diria Dylan, “a resposta, meu amigo, está soprando no vento”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s