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Finalmente o rock voltou para sua casa: o blues. E não entrou pela porta dos fundos, pois estamos falando aqui de uma lenda desconhecida e simplesmente uma das maiores vozes de todos os tempos. E é esse mesmo tempo que agora vem fazer justiça à Betty LaVette.

A cara de Pete Townshend e Roger Daltrey (guitarrista e vocalista do The Who, respectivamente) ao ve-la reinventando “Love Reign O’er Me” (clássico do Who do disco Quadrophenia) no vídeo de 2008 que você pode ver aqui não é para menos. Poucas pessoas tem a capacidade de LaVette de incorporar para si músicas que já tem sua versão definitiva há anos. E esse disco prova que é possível renovar o inimaginável, o consolidado classic rock brtiânico.

Para quem não conhece LaVette, vale uma breve história: cantora dos anos 60, Betty LaVette emplacou alguns sucessos na parada americana de R&B na mesma década, sendo destacada como grande promessa da música negra. Porém seu primeiro disco solo, Child of the Seventies foi engavetado, gerando um imenso baque em sua vida e um hiato de quase 25 anos longe dos holofotes.
Resgatada na década 00 após diversas gravações irregulares, LaVette gravou 2 discos que marcaram a história do blues contemporâneo: I’ve Got my Own Hell to Raise e The Scene of the Crime (indicado para o Grammy), acompanhada dos integrantes do Drive by Truckers. LaVette canta com a rispidez, o sofrer e a amargura de quem teve anos de talento embargados, no pleno espírito de angústia do blues que foi a grande fonte do amadurecimento do rock britânico nos anos 60.

A gravação do Who (para mim, a melhor do disco) foi a porta de entrada para este novo projeto, com repertório bastante tradicional. O álbum abre com a voz sozinha da cantora em “The Word” dos Beatles, crescendo em um funk muito mais à vontade que o original, aqui quase irreconhecível. “No Time to Live” do Traffic se torna uma auto-reflexão de gelar a espinha. Versos como “Eu dei tudo que era meu para dar / e agora vou olhar em volta e descobrir que não há tempo para viver” cabem como uma metáfora triste de sua própria vida.

Importante destacar a produção redonda, que cria uma cama macia e sutil para a voz de LaVette rasgar o espaço, além de captar a essência de músicas como “All my Love”, perdida em excessos na versão original do Led Zeppellin e “Don’t Let the Sun Go Down on Me” de Elton John, que sem o glacê do próprio ganha muito mais alma.

No conjunto geral, um disco que fala de amor de uma maneira sóbria e que capta o olhar nublado de Betty LaVette sobre a vida e sobre o rock’n roll, da maneira como deveria ser: encorpado, vivo, feroz. Às vezes excessivo, como na interpretação pouco sensível de “Wish you were here” (com belíssimo arranjo), mas como se pode dizer que o excesso não faz parte do show?

Fonte:somacaixablog

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