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Bono e The Edge na estréia de ‘U2 3D’ em Sundance (Foto: AP)

O vocalista da banda irlandesa U2, Bono, comparou o guitarrista do grupo, The Edge, com o famoso artista holandês Vincent Van Gogh. Bono fez a comparação ao comentar uma crítica da revista “Rolling Stone” pelo relançamento do álbum U2 “Boy”. O músico disse admirar o baixista da banda, Adam Clayton, e o baterista, Larry Mullen Jr., mas afirmou que The Edge, cujo verdadeiro nome é David Evans, “é o verdadeiro gênio do grupo”. “O verdadeiro gênio de Edge atua em uma tela branca. The Edge encontra novos valores para o espectro do rock. Encontra cores que agora pertencem a ele, assim como fazia Van Gogh”, disse. Segundo o cantor, The Edge “é seguramente o guitarrista mais influente depois dos grandes compositores Jimmy Page, Pete Townshend e Neil Young”.

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Frank Sinatra – A vida é doce

Publicado: maio 15, 2008 em Carreira

Ele inventou o que conhecemos até hoje como pop. Depois da queda mais espetacular que um artista poderia experimentar, The Voice voltou para dar as cartas definitivamente
01/04/2008, 17:53 (atualizado em 01/04/2008 19:13)
Há quem jure que foi exatamente assim: Frank Sinatra, o jovem Sinatra, no palco do Copacabana de Nova York, aguardava fora do foco de luz a introdução de “When You’re Smiling”, que tradicionalmente abria seus shows. Era 26 de abril de 1950 e o homem que inventou a cultura pop com todo seu desdobramento comportamental está estranhamente nervoso. Ele se aproxima do microfone, toma fôlego no tempo exato, mas sua voz simplesmente não sai. “Boa-noite”, dizem que ele murmurou antes de se esquivar dos olhares de uma platéia petrificada e deixar o palco a passos rápidos. Estressado, acossado pela imprensa sensacionalista, recém-separado da mãe de seus três filhos e – mais essa agora – com uma hemorragia na garganta, Frank Sinatra se espatifava no fundo do poço. Parecia que as cortinas finais haviam baixado para ele.Os tempos em que as adolescentes histéricas cerravam as portas do Paramount Theatre dias a fio pareciam distantes em séculos. Seu The Frank Sinatra Show era um fracasso. O Senado estava em seus calcanhares por causa do suposto envolvimento com a máfia. Preocupada com o ritmo da queda, sua gravadora, Columbia, o convenceu a fazer porcarias inacreditáveis como “Mama Will Bark” – com o escritor Donald Bain imitando um cachorro – para depois dispensá-lo de seu elenco. A Metro não o queria mais como ator, muito menos a Universal. Nancy o botou pra fora de casa, mas não lhe concedeu o divórcio, e o velho conquistador (em cujo currículo constam deusas como Lauren Bacall, Sophia Loren e Marilyn Monroe) agora protagonizava cenas de humilhação explícita, caído que estava por Ava Gardner. Foi aí que, em abril de 1953, Frank Sinatra, pioneiro em tantas maravilhas, inventou outro fundamento da cultura pop: a ressurreição.Na Columbia – onde foi parar depois de abafar como crooner da orquestra de Tommy Dorsey entre 1940 e 1942 -, Sinatra chegara como “a próxima grande coisa” da música americana. Com a segurança de quem cresceu nas ruas de Nova Jersey e a esperteza que a infância pobre o obrigou a ter, o cantor combinava a influência de Bing Crosby à apurada técnica de respiração aprendida com Dorsey e à articulação imponente de Billie Holiday. Num período de dez anos, emplacou diversos hits nas paradas (“I’ve Got a Crush on You”, “Someone to Watch Over Me”, “Stormy Weather”) e criou uma espécie de amálgama entre o som das big bands dos anos 30 e 40, o jazz vocal de Louis Armstrong e o traditional pop de Crosby. No processo, inventou o que hoje chamamos de swing, derramando charme sobre as pistas de dança, trazendo para as paradas compositores até então restritos ao universo dos musicais da Broadway (Cole Porter, George Gershwin, Richard Rodgers) e celebrizando a imagem do bon-vivant invejado pelos rapazes e idolatrado pelas mocinhas de meias soquete e rabo-de-cavalo. Era o cantor pop que Leonard Bernstein elogiava publicamente e o primeiro ídolo teen a dar a receita seguida até hoje por justin timberlakes e robbie williams mundo afora.A Segunda Guerra Mundial grassando, os japoneses bombardeando de supetão o Havaí, a bomba atômica sendo testada em Los Alamos e Sinatra emanando cooleza pelos microfones da NBC ou arrancando suspiros nos cinemas do mundo em Marujos do Amor. Ao longo da década de 40, não havia ameaça ao reinado de Frank Sinatra, a única saída para quem procurava alegria, juventude, liberdade e hedonismo naqueles tempos esquisitos. Não à toa, o grande jornalista David Halberstam emparelhou o papel do cantor aos de Ernest Hemingway na literatura, Joe DiMaggio nos esportes e Humphrey Bogart no cinema: poderosos e certeiros fachos de luz em uma América sufocantemente moralista e militarizada.Dez anos depois, às portas da era do rock, dolorosamente Frank Sinatra parecia apenas um almofadinha deslumbrado com o estrelato. O jazz, do qual ele era uma espécie de figura pública pop, havia se intelectualizado mortalmente com o surgimento do be bop – a música negra sexual e dançante era agora o rhythm’n’blues. Àquela altura, diziam que Sinatra tinha parte com a máfia, especialmente com a turma do temido Lucky Luciano. Por causa de seu apoio à Cruzada Americana pelo Fim dos Linchamentos, a imprensa cogitava também seu envolvimento com o comunismo. A relação entre Sinatra e os jornalistas foi tensionando até o ponto em que ele esmurrou o colunista Lee Mortimer em um clube de Hollywood. Agora, “A Voz Que Emociona Milhões” era o alvo predileto dos jornais sensacionalistas.Seus novos discos, como Every Man Should Merry e Sorry, patinavam nas paradas e, apesar disso tudo (ou por causa disso mesmo), o cantor adotou um estilo de vida cada vez mais escandaloso. Não fazia mais questão de esconder seu romance com Ava Gardner (que o levou a tentar o suicídio duas vezes), seu desprezo pela imprensa, nem mascarar sua própria decadência.Desnorteada, a Columbia viu no produtor Mitch Miller a solução para todos os problemas. O nova-iorquino Miller, cabeça do departamento artístico da Columbia, era um misto de homem de marketing e de arte e já havia emplacado Frankie Laine e Patti Page – e, dentro de pouco tempo, sairia com outros hits como Johnny Mathis e Tony Bennett. Sobre um fragilizado Sinatra, o produtor experimentou a valer um tipo de som de raízes negras e suburbanas, como “Bim Bam Baby” e “Tennessee Newsboy”. Aquilo não tinha nome ainda, mas era a indústria fonográfica tateando em busca do rock’n’roll – tanto isso é verdade que o principal elo perdido entre o traditional pop e o rock, Johnnie Ray, surgiu sob as asas de Miller. A aventura de Sinatra, entretanto, foi um fiasco que mataria o cantor de vergonha pelo resto da vida. Sinatra deixaria a Columbia soltando fogo pelas ventas e agora, andando no meio-fio da rua da amargura, precisou de empréstimos dos amigos para não falir.Quase não acreditou quando a Capitol lhe abriu as portas, em abril de 1953. No lugar do mito, um sujeito de 30 e poucos anos solapado pela vida cantando suave e sofisticadamente. Calhou de, junto dele, estar o maior arranjador americano de todos os tempos, Nelson Riddle (na época, aos 32 anos, braço direito de Les Baxter); calhou também de a gravadora estar entusiasmada com o formato long-play de 10 polegadas. Riddle e Sinatra criaram uma memorável série de álbuns amarrados tematicamente, começando com o antológico e romântico Songs for Young Lovers e partindo para o dançante Swing Easy, o sombrio In the Wee Small Hours, o “globalizado” Come Fly With Me.O renascimento de Sinatra como artista adulto culminaria com o Oscar de melhor ator coadjuvante de 1953 por sua atuação no clássico “A um Passo da Eternidade”. Interessante que seu vôo mais alto tenha se dado no exato momento da explosão do rock. Eles lá e Sinatra aqui, pólos complementares de um mesmo espectro pop. Diferentemente de seu inimigo predileto, Mitch Mitchell, “o homem que odiava rock’n’roll”, Sinatra simplesmente não entendia o novo gênero. Mesmo de novo acima do bem e do mal, continuou pelos anos 60 perguntando a seus chegados por que cargas d’água não tinha mais singles entre os Top 10 da Billboard. (O cantor reclamava de barriga cheia; de fato, seus singles não vendiam lá essas coisas, mas nada menos que 20 de seus álbuns freqüentaram as 10 mais entre 1958 e 1966, o que provava seu apelo junto ao público adulto.) O flerte dos velhos olhos azuis com o rock foi do risível (“Mrs. Robinson”) ao simpático (“Something”). Mas rendeu ao menos um momento sublime: o álbum conceitual Watertown, de 1969, tudo o que Nick Cave queria fazer umas décadas depois. Mas, nesse caso, a música era só a cobertura do doce. A contribuição de Sinatra para a cultura pop foi muito mais profunda, enraizada que está na própria relação que todos temos com a música gravada