Arquivo da categoria ‘Metal e Guerra’

Logo da gravadora To The Fallen Records. (Foto: Divulgação)

Canções pacifistas já fazem parte do cânone da música pop – o que seria da carreira de Bob Dylan sem “Blowin’ in the wind” ou da fase solo de John Lennon sem “Give peace a chance”? Mas o pesquisador norte-americano Johnatan Pieslak preferiu enxergar o que acontece com a música quando o pacifismo falha: ele entrevistou uma série de soldados que serviram na Guerra do Iraque a respeito de suas preferências musicais para o livro “Sound targets”.

Soldados dos EUA usam música como inspiração e tática de guerra no Iraque

Música e guerra também andam lado a lado – desde que tambores e cornetas começaram a ser utilizados, ainda na Antiguidade, nos campos de batalha, para orientar e motivar tropas. Na música clássica, um exemplo é a “Abertura 1812”, do compositor russo Pyotr Ilych Tchaikovsky. A obra foi escrita como comemoração da resistência das tropas russas à invasão napoleônica, e a partitura incluía 16 tiros de canhão entre os instrumentos.

Mais moderno e ficcional é o uso em guerras de outra peça clássica – a abertura de “A cavalgada das Valquírias”, do compositor romântico Richard Wagner. Em uma cena do filme “Apocalypse now”, do diretor Francis Ford Copolla, um regimento de helicópteros usa a música do alemão como trilha sonora para uma incursão no Vietnã.

Como um exemplo do clichê “a vida imita a arte”, a situação aconteceu realmente na Guerra do Iraque, diz Pieslak, mas com tanques no lugar de helicópteros. Segundo o pesquisador, não existem registros do uso da música na Guerra do Vietnã, mas no Iraque a situação foi diferente: “Talvez não seja algo que tenha acontecido várias vezes, mas sem dúvida houve coisas assim, especialmente durante a invasão inicial do Iraque, em 2003”.

Metal

Mas não é só a música clássica que tem a sua vez na guerra. Os relatos colhidos por Pieslak mostram que os soldados ouvem rap (especialmente gêneros como o gangsta) e muito metal. Um militar chegou a dizer que gostava de Slayer “porque o som me lembra uma metralhadora”.

O Slayer chegou mesmo a usar o tema guerra em mais de uma música – como nas faixas “Ghosts of war” (“Fantasmas da guerra”) e “War ensemble” (“Agrupamento de guerra”), ou em “Angel of death’, cuja letra fala sobre o médico nazista Josef Mengele. Mas o tema não fica restrito ao Slayer.

O Motörhead tem o clássico “Bomber”, falando sobre bombardeios aéreos na Segunda Guerra Mundial. O Iron Maiden também fala sobre guerra no ar em “Aces high”, e sobre a Guerra da Criméia em “The trooper” – muitas vezes abordando o aspecto trágico dos conflitos. Os pioneiros do black metal Venom chegaram a usar cintos carregados com balas de fuzil – vestimenta repetida por diversos artistas de metal até hoje.

A conexão com a guerra segue até o nü metal – Pieslak diz que “Bodies”, do Drowning Pool, é uma das músicas mais citadas pelos soldados norte-americanos, graças ao seu refrão que diz “let the bodies hit the floor” (“Deixe os corpos caírem no chão”).

A canção foi citada por um soldado no documentário “Farhenheit 11 de Setembro” como “a trilha mais adequada ao trabalho que viemos fazer aqui (no Iraque)”. Curiosamente, a música foi uma das “banidas” pela rede de rádio norte-americana Clear Channel após os ataques de 11 de Setembro.

Por outro lado, o gênero está recheado de canções anti-bélicas, começando por “War pigs”, clássico do Black Sabbath, e passando por “One”, música do Metallica baseada no livro “Johnny ai à guerra”, de Dalton Trumbo e mesmo “Territory”, crítica indireta aos conflitos entre Israel e Palestina do Sepultura. A Guerra do Iraque encontrou seus maiores críticos no System of a Down, grupo de nü metal formado por descendentes de armênios extremamente politizados.

Faça você mesmo

Mas entre os soldados servindo no Iraque, a música não é apenas ouvida – ela também é feita por eles. A guerra acabou servindo de inspiração para muitos deles comporem seus próprios temas a respeito do conflito, muitos deles reunidos sob o selo To The Fallen Records, especializado em música criada por militares
A gravadora tem até o momento quatro lançamentos: uma coletânea de rock, outra de hip hop, uma de country e a quarta compilando músicas em que os soldados se despedem dos amigos mortos no conflito. Com artistas com nomes como American Hitmen e Counterstep, o selo foi criado pelo capitão Sean Gilfillan para lançar os “talentosos músicos militares”. “Não é sobre política, é sobre música”, afirma Gilfillan na página da gravadora.

Um dos artistas que participam do selo é Josh Revak, cantor influenciado por folk e country que lançou o disco independente “In the hours of darkness” (“Nas horas da escuridão”), em que várias das músicas foram compostas para o funeral de seus amigos mortos na guerra.

William A. Thompson IV também foi influenciado por suas experiências no Iraque. Pianista de formação clássica e fã de jazz, foi convocado para a guerra e levou junto um notebook, onde compôs peças de música eletrônica experimental, que foi disponibilizando na rede à medida em que eram finalizadas.

Após voltar aos EUA, lançou o disco “Baghdad music journal” (Diário musical de Bagdá”). “Experimentava com sons recolhidos diariamente com meu iPod”, explica Thompson so site “Perfect Sound Forever”, “a música é bem sombria e introvertida”.

O músico também lembra que a música não é alívio ou incentivo para quem está na guerra: “É muito estranho estar em um lugar calmo depois de se acostumar com a tensão. Até fazer música parecia estranho depois da guerra. Mas tudo mudou depois que voltei a tocar com meus amigos, foi libertador”. Como diria Dylan, “a resposta, meu amigo, está soprando no vento”.

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