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O saxofonista americano Ornette Coleman, que se apresenta em São Paulo na semana que vem, em show em festival na Suíça.

Ele é o maior desconstrutor de melodias da história da música. Seu álbum “Free Jazz”, de 1960, radicalizou a linguagem do gênero, já então meio desmontada por Charlie Parker e John Coltrane, levando a improvisação a alturas jamais vistas.

A contrapartida disso foi que o jazz se tornaria “difícil” para o grande público –se é que esse gênero teve isso algum dia.

Mas Ornette Coleman –que se apresenta em São Paulo na próxima semana, dentro da Mostra Sesc de Artes 2010– também deve ser o maior destruidor de entrevistas da história do jornalismo.

Aos 80 anos, o consagrado sax alto americano não tem lá muita paciência para nada que não seja sua própria arte, coisa que a reportagem descobriu amargamente.

O sr. foi criado no Texas nos anos 1930, durante a Grande Depressão. Foi vítima de racismo?

“Não, não, nunca pensei nisso. Só pensei em três coisas importantes: escolha, honestidade e amor. Isso é simplesmente humano, coisas com as quais nós temos que conviver.”

Pergunto se é difícil construir uma carreira de jazzista hoje, já que existem tantos bons músicos dando duro por uns trocados nas ruas e estações de metrô de Nova York, Londres… Ele retruca em sua voz baixa e sussurrada: “Não estou entendendo o que quer dizer…”.

O repórter fica inseguro (“Será que meu inglês anda ruim assim?”) e lembra ao saxofonista que, em uma entrevista dez anos atrás, afirmou que “economia e arte nunca foram bons companheiros, sobretudo para mim”.

Mas recebe outra resposta enviesada: “Acho que é de racismo que você está querendo falar e isso não tem a ver com conhecimento”.

Já que toca no assunto, pergunto como vê o governo de Barack Obama, primeiro presidente negro dos EUA: “Não tenho muita informação a respeito, mas acho que está num alto nível”.

LIBERDADE

Então, de volta ao seu ofício: sr. Coleman, a crítica insere o “free jazz” na linhagem do bebop… “Nunca pensei em ser influenciado por coisa nenhuma. Tentei [em minha carreira] não sofrer influência de ninguém.”

Mas como define o “free jazz”, termo que criaria vida própria –e banal– após ter sido apropriado pela cultura de massa. “Significa que você pode tocar e criar livremente, tocar do jeito que sente, do jeito que gosta.”

De fato. Seu álbum clássico juntou dois quartetos que fazem uma improvisação coletiva por quase 40 minutos.

A melodia simples e grudenta dos primeiros minutos desmorona rapidamente nas mãos de mitos como Freddie Hubbard (trompete), Charlie Haden e Scott LaFaro (contrabaixo), liderados pelo próprio Coleman _que toca o mesmo instrumento de Charlie Parker.

Para o músico André Mehmari, o álbum mostra como o verdadeiro “free” é um “paradoxo”, pois “ele só pode existir com o suporte de um forte rigor artístico, de respeito por certos limites”.

TANTAS EMOÇÕES

Coleman não costuma tocar os grandes standards do jazz em suas apresentações. “Toco, sim, mas não os mesmos de sempre.”

Traduzindo: prefere tocar composições de sua própria safra que já se tornaram pequenos clássicos, como “Ramblin'”.

A fama o incomoda? “Não tive família nem ninguém me apoiando, simplesmente ocorreu de ser quem eu sou e me reconhecerem por isso.”

Indago a Coleman se Nova York –onde reside e de onde concedeu esta entrevista– ainda é a meca do jazz. “Você está me perguntando se o jazz ainda é importante para alguém aqui? Não estamos falando sobre raça, mas sobre conhecimento, certo?”

Bem, então onde está a melhor cena de jazz da atualidade? “Não saio procurando por isso.” E devolve, no mesmo tom ingênuo: “Você toca algum instrumento?”.

“Bem, quando criança, tocava o bife no piano para agradar a mama e um pouco de flauta para irritar os vizinhos. Mas nada hoje em dia.” E Coleman, cristalino: “Não sei se é o dia o responsável por você não tocar, mas, sim, você mesmo”.

Já com o rabo entre as pernas, o repórter faz a clássica pergunta sobre o que ele espera do público brasileiro. “Não espero nada –apenas procuro dar alguma coisa.”

Está bem, o sr. venceu. E o que então espera dar ao público daqui? “O que as pessoas chamam de emoção.”

“O grande revolucionário do jazz moderno” –como o chamou o crítico Lorenzo Mammì– parece querer dar as costas para todos os que o incensam há tanto tempo.

“Aquilo de que mais gosto é a humanidade, o amor… É disso que precisamos para viver”, arremata Coleman.

ORNETTE COLEMAN
QUANDO sáb., 27/11, às 21h30; e dom., 28/11, às 18h30
ONDE Sesc Pinheiros (r. Paes Leme, 195, Pinheiros, tel. 0/xx/ 11/3095-9400)
QUANTO R$ 40
CLASSIFICAÇÃO 12 anos

MARCOS FLAMÍNIO PERES
DE SÃO PAULO -Folha Ilustrada.

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Começam a ser vendidos nesta segunda (1º), em todas as unidades do Sesc, os ingressos para os shows do cantor Lou Reed, do saxofonista Ornette Coleman e do cantor e compositor Gil Scott-Heron.

O ex-líder do Velvet Underground apresenta-se ao lado de Ulrich Krieger e Sarth Calhoun nos dias 20 e 21 de novembro no Sesc Pinheiros, como um dos destaques da Mostra Sesc de Artes 2010.

Um dos fundadores do free jazz nos anos 1950, Coleman sobe ao palco da mesma unidade nos dias 27 e 28 deste mês para mostrar canções de seu álbum mais recente, “Sound Grammar”.

Já Scott-Heron estará no Sesc Vila Mariana nos dias 26 e 27. Os ingressos para os dois eventos custam de R$ 10 a R$ 40.

A maioria das unidades funciona a partir das terças-feiras. Somente as unidades Consolação e Carmo abrem às segundas.

Confira a programação completa do evento no site www.sescsp.org.br.
Fonte.Guia Folha